Conheça Aristeu Pires, designer que ao ‘mudar de vida’ se consolidou

Formado em ciências da computação, Aristeu foi atrás de qualidade de vida e se encontrou no designer de móveis

Quem ler um resumo da vida do designer de móveis Aristeu Pires provavelmente vai se surpreender com a formação do empresário. Ele é formado em ciência da computação e à primeira vista fazer um paralelo entre as duas profissões parece difícil, mas ao conversar com ele, e entender melhor sua história, as coisas passam a fazer sentido.

Baiano de Campo Formoso, Aristeu, de 67 anos, deixou o estado com apenas oito anos. De lá, até se firmar em Canela, no Rio Grande do Sul, há 20 anos, ele não “parou quieto”, como dizem pelas bandas baianas. O artista passou por Salvador, mas logo depois foi para Goiás, e ainda morou em Brasília e Rio de Janeiro.

 

O primeiro contato com o Rio Grande do Sul foi no final da década de 80, quando fez mestrado em Porto Alegre. “Na doida”, como descreveu, acabou indo morar em Gramado a convite de um amigo. “Foi um ano e pouco morando lá e ficou aquele gosto de qualidade de vida”, refletiu Pires.

Esse “gosto” foi fundamental para o surgimento da carreira no universo dos móveis. Apesar de “gostar muito” do que fazia na área da computação, a necessidade de uma mudança de estilo de vida foi crescendo. “Eu viajava muito, eram 360 mil quilômetros por ano, então chegou um ponto que isso começou a afetar minha qualidade de vida. Meu casamento não continuou, não vi minhas filhas crescerem, ou seja, era um preço muito alto para pagar, embora eu gostasse muito do que eu fazia”, contou.

Quando já estava morando novamente no Rio de Janeiro, Aristeu foi visitar Gramado e surgiu a oportunidade de abrir uma empresa, mas ainda dentro da área de informática. Sempre pensando em diminuir o ritmo, em busca de uma vida mais simples.
Acabou não dando certo e um plano B surgiu de forma completamente involuntária. Com uma simples compra de móvel para casa nova, o novo modelo de vida tão desejado por Aristeu foi se moldando.

“Meu apartamento novo no Rio tinha uma mobília muito ruim. Como estava em Gramado, um lugar que vende muitos móveis, comecei a procurar na avenida que liga Gramado com Canela, de loja em loja, e não achei nada que eu gostasse”, explicou.
Para mostrar o tipo o que queria exatamente, Aristeu desenhou, então, seu primeiro móvel. Claro que de maneira improvisada, mas os dois anos que cursou engenharia e aprendeu desenho técnico foram suficientes para ele conseguir encomendar a cadeira e mesa que desejava.

Vai dar certo

Chaise Pitu

Depois de desenhar os móveis, Aristeu fechou uma parceria com o dono da fábrica e sócio da loja. Desenharia os produtos e a loja os venderia. Foi aí que ele viu a oportunidade de, então, conseguir a tão esperada qualidade de vida.
Foi para São Paulo pedir demissão e ao contar ao chefe que iria desenhar móveis, ouviu que ele “não estava bem”. O chefe ofereceu férias – algo que não fazia parte do vocabulário de Aristeu há sete anos -, mas nesses 30 dias ele se preparou para a grande mudança: estudou, pesquisou, alugou casa em Gramado.

Dois meses depois da ideia surgir, Pires estava de “mala e cuia” na cidade, pronto para a nova vida. O dono da fábrica, no entanto, não estava tão pronto assim. “Ele disse que no final de ano o movimento era baixo e que não poderia me atender. A inauguração da loja que eu tinha alugado era no mês seguinte, já tinha alugado por um ano, o apartamento também, já tinha pedido demissão. Tinha refeito minha vida e de repente eu estava sozinho”, relembrou.

Antes de poder dizer que deu certo, Aristeu ainda teve problemas com outro fornecedor que sumiu, com uma loja que não se pagava, com um americano que exportava seus produtos e deu um calote e ainda precisou enfrentar uma micro explosão. E não é uma figura de linguagem. Em 2004, a fábrica, que a essa altura já havia expandido, com 2 mil m² e 40 funcionários, foi atingida por um fenômeno natural.

“Um jato de ar que caiu bem no centro da minha fábrica, em 10 segundos a 260km/h, sumiu tudo. Telhado desapareceu. Meia hora antes os funcionários tinham saído e ninguém se machucou, mas não sobrou nada da fábrica”, contou.
A solução foi achar um galpão provisório para recomeçar. “Foi um ‘vai ou racha’. Resolvi investir o que eu não tinha, não tinha dinheiro, mas o pessoal vestiu a camisa e hoje estamos com 4 mil m² e 80 funcionários. E já estamos precisando expandir para um espaço maior”.

Agora, que deu muito certo, Aristeu conta que as pessoas ao seu redor classificaram essa mudança tão brusca como uma irresponsabilidade. “E era mesmo. Porque eu não tinha nada concreto na mão, mas era a agonia de recomeçar a vida. E eu não queria recomeçar de onde eu estava. Eu queria ter um novo casamento, reconstruir minha família, viajando do mesmo jeito? Desse jeito, não dava. Eu precisava fazer uma ruptura”, explicou. E valeu a pena? “Se eu tivesse a chance de voltar atrás, faria a mesma coisa. Mas estaria com mais experiência, não faria tanta burrice, mas é muita gratificante”, afirmou.

Informática x madeira

“Mas o que tem a ver a informática e móveis de madeira?”, esse era um dos questionamentos que o designer ouviu durante esse processo de mudança de carreira. E a reposta foi encontrada após muito tempo de reflexão – “e terapia”, lembrou ele.
“O que me dá o prazer é o processo criativo. O que eu fazia lá [na informática] era criar soluções. Eu fazia arquitetura de uma solução e sempre trabalhei em criar e conceber sistemas, em criar coisas novas”, pontuou.

Mas os móveis, por si só, nunca foram uma grande paixão. O que Aristeu desenhava na juventude eram carros. “Coisa de adolescentes, adorava desenhar carros de corridas, adora Fórmula 1”, lembrou.

Inspirações

Diferentemente dos programas que desenvolveu quando trabalhava com computação, os móveis desenvolvidos por Aristeu não ficam obsoletos. Uma das suas primeiras criações, a poltrona Gisele, que ganhou o Prêmio do Museu da Casa Brasileira, segue sendo vendida, mesmo 20 anos depois. “O móvel não fica velho, fica vintage”, brincou. “Quero fazer peças que as pessoas queiram ter ao seu lado pelo resto da vida”, resumiu.

O estilo do designer está em cada peça criada. Ele diz não querer saber de tendências – “porque isso vai passar” -, e sim fazer móveis a cara dele, e que pessoas com gostos parecidos com o dele, gostem. Além disso, Aristeu não abre mão da durabilidade das peças, que passam por controle de qualidade antes de serem colocadas à venda.

Poltrona Gisele

E de onde vem as inspirações para os desenhos? Segundo o baiano, das suas necessidades. Aristeu contou que umas primeiras coisas que desenhou e produziu foi uma cama. “Minha mulher vivia batendo a canela no canto da cama quando levantava de noite, e uma vez quebrou o dedinho do pé no pé da cama. Além disso, fui fazer uma limpeza na cama e vi que estava cheia de mofo. Então pensei, preciso fazer uma cama que não dê “topada” e não dê mofo. E fiz”, relembrou.

Dessa forma, ele também desenhou, por exemplo, um berço para uma de suas filhas e uma poltrona para seu pai que estava com Mal Parkinson – a Gisele.

Fonte:Ibahia (https://www.ibahia.com/detalhe/noticia/dia-do-nordestino-conheca-aristeu-pires-designer-que-ao-mudar-de-vida-se-consolidou/)